A história da humanidade pode ser observado através de diferentes pontos de vista. A história da indumentária e da moda é uma dessas formas de compreender os eventos que trouxeram a humanidade aos dias atuais. Dentro da história da moda, a história dos tecidos nos permite investigar as fibras têxteis, seus usos, processos e tecnologias.

 

Nesse artigo você irá ter uma panorama das transformações do uso das fibras e tecidos da antiguidade à era industrial!

 

A chamada Revolução Agrícola marcou a história da humanidade pela transição do modelo de vida nômade para o sedentarismo. O crescente domínio da natureza possibilitou o desenvolvimento da agricultura e domesticação de animais, assim foi possível fixar residência.

Como consequência desse novo modelo de vida a tecelagem se estabeleceu como um processo de confecção de tecidos. A técnica de cruzamento dos fios já era conhecida e utilizada na confecção de cestos.

 

Sobre os primeiros tecidos¹ Vincent-Ricard, autor de Espirais da Moda, afirma: “Esses primeiros tecidos eram de armação-tela (tafetá) muito parecida com a atual: o entrelaçamento do fio de teia com o fio de trama reproduzia um módulo básico: um fio preso, outro saltado, cruzando-se indefinidamente. Depois vieram mais duas amarrações: armação-sarja (sarja) e a armação-cetim (cetim). Estas são, até hoje, as três armações básicas de todos os tecidos”²

fragmento tecido de linho Fragmento de tecido de linho | Título: Weefselfragment | Criador: Anonymous | Data de criação: c. 200 – c. 999 | Meio: linen (material) | Local: Rijksmuseum

 

Devemos destacar que neste período o processo de fiação consistia em estirar os chumaços de fibras (lã, algodão, ou linho) e manualmente proceder a torção.

 

Segundo James Laver, autor de A Roupa e A Moda, foi o domínio dessa técnica que permitiu a evolução dos têxteis até às tecnologias atuais: “Uma vez estabelecida a manufatura de tecidos, mesmo que fosse em escala pequena, abriu-se o caminho para o desenvolvimento das roupas como as conhecemos.”³

 

EGITO

As pinturas em paredes, estatuetas e os registros em baixo relevo do Egito Antigo foram privilegiados pelo clima seco da região preservando a documentação histórica. Este fato permitiu que hoje nós possamos analisar a indumentária sob a perspectiva da produção têxtil.

Sua indumentária poderia ser consideradas simples, porém, o destaque da indumentária egípcia se concentrava nos seus acessórios e principalmente nos têxteis.

Sua produção era baseada nas fibras naturais vegetais, principalmente o linho, pois as fibras de origem animal eram proibidas pela religião. Produziam tecidos nobres e eram capazes de confeccionar peças utilizando tecidos transparentes assim como tecidos drapeados. Essa técnica exigia um bom domínio da tecelagem e grandes equipamentos, o drapejamento foi considerado a identidade e a característica da roupa mais importante da civilização egípcia antiga.

 

tecido drapeado egipcio antigo

GRÉCIA ANTIGA

Ao contrário do que podemos imaginar ao observarmos as esculturas gregas, os tecidos eram ricamente ornamentados e coloridos.

Imagina-se que a indumentária da Grécia Antiga fosse quase exclusivamente em tons claros naturais das fibras. Contudo, hoje sabemos que até os menos favorecidos tingiam suas vestes utilizando tintas vegetais em tons de ferrugem, verde-musgo e hena e as classes mais abastadas se privilegiavam de tons vibrantes:

 

“Todas as roupas de lã – pelpos, túnicas, e toda a diversidade de capas e mantos – eram profusamente coloridas. Uma das cores favoritas (e que indicavam uma certa distinção) era uma vermelho-escuro intenso, ou púrpura. As guarnições em geral assumiam a forma de listras e debruns coloridos com padrões que podiam ser entretecidos ou bordados.” ⁴ KÖHLER, Carl. História do Vestuário

 

Os bordados eram uma prática comum para a ornamentação dos tecidos. Sendo aplicados nas extremidades do tecido formando uma cercadura. Os motivos eram variados, desde formas geométricas como circulo, quadrados, rosetas, até formas da natureza como animais, folhas de louro e acanto.

Os mito gregos das Moiras, as divindades que executam o trabalho de fiar, tecer e cortar o fio da vida, e de Arcne e Filomela trazem a tecelagem como um elemento mítico. Isso demonstra como a prática da tecelagem era importante para a cultura grega.

IMPÉRIO ROMANO

No período do Império Romano a fabricação dos tecidos era um ofício feminino. Existiam aquelas que teciam como atividade profissional, como também oficinas que ensinavam o ofício, porém, era mais comum que a produção se concentrasse dentro dos lares romanos.

A prática era tão representativa para a cultura romana que a roca, o fuso e entre outros equipamentos da tecelagem faziam parte do cortejo nupcial.

A noiva seguia da casa de seu pai acompanhada por três companheiras para a casa de seu esposo levando sua roca e fuso. Esses objetos simbolizavam as habilidades domésticas da noiva e sua capacidade de gerir o lar. Toda mulher romana independente de sua classe social deveria saber fiar e tecer.

IDADE MÉDIA

No inicio da Idade Média o processo de fiação começa a sofrer mudanças. Estima-se que a criação da roca mecânica ou roda de fiar tenha sido inventada entre o ano 500 e 1000 da Era Cristã na Índia, contudo, a primeira documentação que registra o uso desse equipamento data de 1280.

O principal fator diferenciador entre a roupa usada pelos pobre e os nobres, era o processo de confecção dos tecidos. Isso porque ambos os grupos sociais usavam tecidos produzidos com as mesmas fibras. A diferença consistia na técnica de fiação, tecelagem e ornamentação. Os ricos usavam trajes ricamente ornamentos e confeccionados com fios de qualidade, enquanto os pobres se vestiam com tecidos de aspecto rústico.

No século XII ocorreu a invenção de máquinas e acessórios importantes de tecelagem: a roda de fiar ou molinete, em substituição da roca e do fuso; do pisão, um tambor giratório movido pelo fluxo de água, que acionava martelos que batiam sobre o tecido, anteriormente esse processo era feito através da pisagem humana sobre os tecidos; da máquina cardadora, maquina movimentada pela força hidráulica, que trabalhava diversos fios ao mesmo tempo; do moinho de dobrar seda; do tear horizontal com pedal, que permitia que as mulheres pudessem trabalhar enquanto supervisionavam outras atividades.

tecido jacquard textile fabric século XIV veneza
Título: Textile | Criador: Unknown | Data de criação: 1250/1350 | Tipo: Textile | Meio: Silk on taffetas background and broccatura

Foi, também, durante a Idade Média, mais especificamente no século XV, que as primeiras peças de roupa estampadas foram registradas através das artes visuais. Essa técnica oriunda de povos orientais – indianos e chineses – chegou ao Ocidente, juntamente com as outras técnicas de produção e ornamentação têxtil, através das rotas comerciais criadas a partir das Cruzadas.

No século XV os tecidos mais comuns eram: lãs, linhos, algodões, acessíveis a toda as classes sociais e possuíam diversas formas de uso, como por exemplo, o linho que era usado no tratamento da lepra; sedas italianas ou bizantinas, pesadas, leves ou quase transparentes; reservadas apenas para os mais abastados; veludos moles e com brilho; brocados orientais com padrões simples, suntuosos e metalizados; tapeçarias com caimento para indumentária; adamascados monocromáticos. As cores mais usadas eram o vinho, vermelho, verde, amarelo pálido, mostarda, branco, marrom e preto. A ornamentação ficava por conta das peles animais, bordados e da técnica de estamparia, que havia acabado de surgir, e se valia de flores, listras e formas geométricas.

RENASCIMENTO

Foi durante o Renascimento que as rodas de fiar foram aperfeiçoadas. Agora, acompanhada de uma bobina em que o fio se enrolava continuamente. A roda era tocada com o pé,liberando as mãos do fiador, enquanto a roca em que a fibra natural era sustentada se transformava numa vara vertical e fixa. Foi então chamada “roda saxônica”.

Os italianos se caracterizavam pelo uso de tecidos, em um aspecto geral, pesados com brocado, bordados e drapeados. O uso do veludo também era muito comum, assim como o uso de pedras preciosas e pérolas nos bordados.

Entre os tecidos usados no século XVI, podemos destacar o uso das rendas bordadas em ouro e pérolas, seda moiré, lavrada, chamalote, tafetá, veludos frisados, lavrados ou bordados, cetim, adamascados, brocatel, feltros e musselines, além do uso dos tecidos mais comuns como linho, algodão e lã. A lã era destinada a produção de tecidos que seriam usados no dia a dia. Não havia ornamentação e quando havia algum tipo de beneficiamento era a tintura com pigmentos naturais.

Com a expansão dos tecidos de seda italianos, atribuída a invenção da máquina de desenrolar os casulos, a produção de tecidos de lã entrou em crise. Grande parte da população, apesar dos esforços para limitá-la à nobreza, tinha acesso à seda, justamente pela grande oferta de produtos.

Houve também um desenvolvimento local das estampas e ornamentos. Enquanto a Itália privilegiava o uso do tafetá, veludos, adamascados, ornamentados em fios, de diferentes espessuras, de ouro e prata com motivos naturais, a Inglaterra desenvolvera tipos de bordados, um em especial, muito usado em trajes religiosos, chamado Opus Anglicanum.

 


Título: Man’s Cape | Local: Italy | Meio: Silk satin, slashed, with silk satin passementerie | Credit Line: Costume Council Fund | Chronology: 16th century

BARROCO

No inicio do século XVII o exagero era o que regia a moda e no final do século, a exuberância ganhou espaço. Podemos associar o Barroco à figura de Luís XIV, isso porque, o Rei Sol e sua corte, transformaram o estilo da época e se tornaram referência histórica. Os tecidos acompanhavam o esplendor do período. Agora, era mais fácil encomendar os têxteis ricamente ornamentados do Oriente. A demanda foi tão grande que foi preciso leis que regulassem o consumo de tecidos orientais a fim de diminuir o prejuízo dos produtores de tecidos em lã da França e Inglaterra.

As sedas podiam ser leves, pesadas e com acabamento lustroso. Os mais abastados costumavam em ousar peças brocadas em ouro ou prata, assim como as gazes e rendas. A pelúcia havia sido desenvolvida e o fustão, cambraia batista eram de uso comum. O algodão cru servia aos homens menos favorecidos e também para confeccionar os acolchoados de crina. O vermelho-escarlate feito através do Pau-Brasil, o vermelho-cereja, e o azul-escuro, eram as cores preferidas. Por vezes eram usadas cores claras como rosa, azul-céu, e o amarelo-pálido. Novidades como o salmão, roxo, verde limão e turquesa aparecem neste período.

Os tecidos estampados se tornaram disponíveis à população em diversos estilos através do domínio e uso de técnicas de impressão, aliadas ao desenvolvimento da coloração.

Título: Wedding suit | Data de criação: 1673 | Local de criação: England | Procedência: Purchased with the assistance of The Art Fund, the National Heritage Memorial Fund, the Daks Simpson group Plc and Moss Bros | Meio: Wool, embroidered with silver and silver-gilt thread and lined with red silk

ROCOCÓ

Se o Barroco foi caracterizado pelo exagero o Rococó foi, de fato, o exagero do exagero. Após Luís XV assumir o trono, a corte adotou o estilo Rococó propriamente dito. Os tecidos acompanharam a opulência do estilo Rococó. Os tecidos de seda ganharam texturas variadas, sendo os adamascados, lavradas, e tafetá encorpado, os preferidos.

Os brocados, veludos com relevo, gaufré, calandrado e chiné. Os tecidos comuns no século anterior continuaram em uso, porém agora, com a produção aperfeiçoada. As rendas ganharam lantejoulas para ornamentação e os tecidos brancos como cassa suíça, organza, laise e o bordado inglês estiveram na moda. Assim como os tecidos exóticos originados da Índia.

tecido bordado 1755
Detalhe do tecido bordado com fios de ouro | Título: Mantua | Data de criação: 1755/1760 | Local: England | Procedência: Given by the Crawley Family

Toda a efervescência intelectual que dominou a Idade Moderna impulsionou o processo de industrialização. O processo já em andamento, ao longo do século, teve seu apogeu com a Revolução Industrial na Inglaterra. A Revolução Industrial também transformou processo de fabricação dos tecidos bem como das roupas. Ao poucos sua produção foi migrando do artesanal para o industrial, mas isso é assunto para o próximo artigo.

 

REFERÊNCIAS

1 – Dinah Bueno Pezzolo (2009) define o termo tecido como um produto resultante do entrelaçamento regular de fios verticais (trama) e horizontais (teia). Podendo ser produzido em escala artesanal e industrial. Escobet (1960), complementa afirmando ser um gênero obtido em forma de lâmina com resistência, flexibilidade e elasticidade variada.

2 – VINCENT-RICARD, Françoise. Espirais da Moda Rio de Janeiro: Paz e Terra, 3º ed, 1989.

3 – LAVER, James. A Roupa e A Moda São Paulo, Companhia das Letras, 1989.  (p. 12)

4 – KÖHLER, Carl.

História do Vestuário

São Paulo, Editora WMF Martins Fontes, 2009. (p. 129)

 

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